domingo, 4 de outubro de 2015

Intolerância Religiosa

         

Transcrevemos a descrição daquilo que se chamava auto-de-fé:

         “O auto de fé - diz o escritor - consistia em apanhar uma dúzia de culpados, na consciência dos quais se haviam encontrado uns pensamentos escondidos (un recel de pensées); empilhavam-se, então, feixes de lenha, muito bem colocados, uns sobre outros, em boa ordem e simetria, visto que nossa Santa Madre Igreja sempre foi inimiga da desordem; do monte de achas emergia um poste; havia três, dez, algumas vezes uns vinte, destes belos postes, muito convenientemente espetados; ligavam-se a eles, com cordas inteiramente novas, os malandros suspeitos de medíocre fervor católico. Depois,  vinham os monges com círios e punham fogo aos feixes; a fumaça ascendia; as chamas precipitavam-se; os infortunados tentavam esforços sobre-humanos por se libertarem dos laços; a carne tostava; escapavam-se lhes bramidos de dor... Morriam em inomináveis agonias, com a face retorcida, a alma desesperada por tanta perversidade. Chamava-se a isto um auto-de-fé." (9)

          Um exemplo, este nosso:

         Giordano Bruno proclamava que milhares de mundos, sóis inumeráveis se achavam disseminados na infinita amplidão; que a Terra era um átomo lançado no espaço; não tinha importância especial nem preeminência com relação a outras terras, as quais também se moviam no etéreo espaço infinito; afirmava que tudo é perfeição e ordem na natureza, devendo ter-se como errada a doutrina que conferisse prerrogativas ao atrasado mundo em que habitamos.

          Essas e outras profundas heresias fizeram-no subir à fogueira purificadora.

          Na data de sua execução, que foi a 17 de fevereiro de 1600, as ruas da cidade de Roma estavam repletas de povo. Nada menos de cinquenta cardeais vieram para a grande festividade crematória. Por toda parte viam-se as filas de peregrinos, longas, intermináveis, com variado indumento, que se iam de igreja em igreja implorar o perdão de seus pecados, e encomendar as santas almas ao Criador.

          No meio da plebe notavam-se príncipes e eminentíssimas personagens e não raro, atrás deles, o pontífice.De todas as bocas se erguiam preces; todos os joelhos baixavam à terra; as procissões desembocavam de todas as esquinas. Era uma demonstração nunca vista de humildade e brandura. Disseram-se em S. Pedro quarenta e uma mil e duzentas e trinta e nove missas (41. 239), havendo, também, um número espantoso de comunhões.

          Ouçamos, agora, Arturo Labriola e Lúcio Vero:

          "Quell' immenso concorso di popolo - i cronisti del tempo [anno ascendere a tre milioni ilnumero dei pellegrini convenuti a Roma - quel continuo pregare sembravano il segno piu sicuro che tutti i cuori dovessero inclinare a misericordia e perdono, e tutti congiungersi amorevoli nel Redentore pacifico dell' umanità. Pure non era cosi."

          "Aquele imenso concurso de gente - os cronistas do tempo faziam ascender a três milhões o número de peregrinos vindos a Roma - aquelas contínuas rezas pareciam o mais seguro penhor de que todos os corações ali estavam para se inclinar à misericórdia e ao perdão, para se unirem, em amor, ao Redentor pacífico da humanidade. Mas tal não se dava." (9-A)

          De fato, não foi o que se viu. O pobre filósofo, cujo imenso crime era não estar ao nível da ignorância da época, nem concordar com a escravização do pensamento, foi ao suplício, acompanhado da imensa multidão Que enxameava nas ruas e nos templos. Os sacerdotes empunhavam crucifixos; soldados e guardas conservavam as suas armas, como se temessem ainda o prisioneiro, que marchava a pé, sem um parente, sem um conhecido, sem um amigo ao lado, amarrado, acorrentado, encadeado, em direção ao local do martírio, que, por ironia, tinha o nome poético de Campo das Flores.

          O cortejo fúnebre cantava litanias, fazia orações e lançava anátemas ao condenado.

          Depois o puseram sobre as achas e lhes deitaram fogo, enquanto a multidão piedosa alternava os olhares entre o Céu e as chamas, como agradecendo àquele o esplendoroso espetáculo que estas lhe proporcionavam.

          E assim se extinguiu, nas contorções do hediondo martírio, aquele homem ilustrado, clarividente, sincero e bom, mas que abalara a Igreja secular com as verdades que viera trazer ao mundo.

          Resta-nos, hoje, no século das luzes, luzes certamente mais brandas, o consolo de que já não seremos queimados. Apenas, as verdades espíritas, na opinião de muitos, ainda se não podem ou se não devem dizer de público, pelo menos nas escolas.

(9) Michel Zevaco - "Triboulet"

(9A) Arturo Labriola e Lucio Vero - "Giordano Bruno" pág.87, Roma, Ed.Podrecca e Galantara.

Autor: Carlos Imbassahy

Fonte: Religião - Palavras Preliminares (Página 46)
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Fonte do texto acima: http://www.vademecumespirita.com.br/goto/store/texto/656/a-intolerancia-religiosa-e-a-ignorancia

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Momento em que pais adotivos vão buscar seus filhos no orfanato


Os Filhos

(Do Livro "O Profeta", Kahlil Gibran)

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."
E ele falou:
         
Vossos filhos não são vossos filhos.        
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.        
Vêm através de vós, mas não de vós.        
E embora vivam convosco, não vos pertencem.        
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,        
Porque eles têm seus próprios pensamentos.        
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;        
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,        
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.        
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,        
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.        
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.        
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força        
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.        
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:        
Pois assim como ele ama a flecha que voa,        
Ama também o arco que permanece estável.

Campanha Adoção Laços de Amor filme 1 versão estendida


Ter filhos ou não? Escolha consciente!


Por Ana Elisa Oliveira

A farmacêutica Jacqueline Máximo, 47 anos, de Belo Horizonte (MG), sempre teve receio de ser mãe. “Sempre fui muito analista a respeito das coisas do mundo, afinal, ele não está fácil. Ao mesmo tempo em que sair da minha zona de conforto, para mim, era uma prova ter filhos”, conta. Ainda assim, Jacqueline decidiu superar o medo quando estava com 39 anos, porque o marido queria muito ter filhos. “Cheguei a chorar quando pegamos o resultado, mas o meu marido ficou tão feliz e recebi tanto carinho das pessoas que fui me tornando uma grávida mais satisfeita”, lembra Jacqueline.

Com o dia a dia das pessoas cada vez mais corrido e o mundo apresentando tantos desafios, a decisão de ter ou não filhos ainda é bastante discutida nos dias de hoje. Os recursos que a indústria e a tecnologia dão ao ser humano, na Terra, têm tornado a rotina cada vez mais eficiente. No entanto, esta praticidade das tarefas gera mais compromissos, ocupando quase todo o dia das pessoas. A tecnologia (aparelhos de celular, internet), o trabalho, as atividades físicas, as viagens, o lazer trazem, como consequência, a falta de tempo, o estresse e o cansaço. As lacunas de tempo que antes serviam ao relacionamento mais próximo com a família e amigos já quase não existem.

Desta forma, ter filhos deixou de ser uma obrigação. E sem falar que as mulheres estão cada vez mais assumindo funções no mercado de trabalho, o que torna o cenário ainda menos propício a uma possível expansão da família. Aliado a tudo isso, as diversas alternativas que hoje existem para o planejamento familiar e para evitar a concepção, além do receio de assumir ainda mais responsabilidades, o que faz com que as mulheres, principalmente, adiem – e até excluam – essa opção de suas vidas.

Pontua-se, aqui, ainda, que a Doutrina Espírita se opõe totalmente a qualquer tipo de aborto, ou seja, a qualquer forma de interrupção do óvulo já fecundado, em qualquer situação que tenha sido concebido – já que a união do espírito com o corpo se dá no momento da concepção. Desta forma, ainda que a oportunidade de tornar um espírito reencarnado por meio de uma gestação seja uma missão de grande oportunidade para a evolução, a responsabilidade também tem a mesma proporção. Segundo a estudiosa da doutrina e advogada Simone Rachid, trabalhadora da Fundação Espírita Carita, em Belo Horizonte, pais e filhos geralmente têm histórias entrelaçadas há várias encarnações, e elas podem, muitas vezes, ser alternativas para apaziguar relações conflituosas.

A escolha de trazer uma nova vida ao mundo, hoje, não é somente racional. A psicóloga Christiane Roussin explica que trata-se principalmente de um ato de humildade, amor e caridade. “Humildade, por reconhecer que somos falhos, que criamos uma sociedade adoecida nos seus valores morais e espirituais; amor, por querer compartilhar este mundo com o bebê que virá da forma que vier (com toda sua carga genética e energética); e caridade, por saber de todos esses aspectos e mesmo assim estar aberto aos desafios de ser pai e mãe”, afirma.

A decisão de ter filhos e do melhor momento para isso faz parte do planejamento reencarnatório e do livre-arbítrio de cada um. No livro Nossos Filhos são Espíritos, o autor Herminio Miranda relata a emocionante experiência da paternidade, o que também traz responsabilidades. “A geração de um corpo humano para que nele se instale um espírito é uma decisão grave, pejada de implicações e consequências. Representa um convite formal a alguém que já existe numa dimensão que nos escapa aos sentidos habituais e que estamos propondo receber, criar e educar, oferecendo-lhe nova oportunidade de vida”, afirma o autor.

Simone Rachid compartilha desta opinião. “A nossa consciência será sempre o sinalizador das nossas decisões e podermos sempre optar e escolher o nosso caminho, faz parte da nossa evolução”, pontua. No entanto, ela faz ressalvas quanto às consequências, que podem ser bastante positivas. “As dúvidas que muitas vezes permeiam a decisão da maternidade ou paternidade são superadas pela alegria de poder recomeçar, fazer novos caminhos, estabelecer novas relações e desenvolver cada vez mais a capacidade de amar e ter certeza de que essa trajetória transforma a nossa vida”, afirma Simone.



Missões Diversas em um Mundo Atribulado

Algo que impede e adia a decisão de muitos casais de gerar uma nova vida é a turbulenta rotina que o século XXI proporciona, com responsabilidades cada vez mais extensas e tempo livre cada vez mais curto, além da preocupação com a vida financeira. A advogada Flávia Penido, 28 anos, se vê mãe desde a infância, e até mesmo imagina seus filhos a esperando em casa quando chega do trabalho. 

Ainda assim, ela adia o momento porque espera se estabelecer profissionalmente, já que terá que abrir mão de muita coisa. “Considerando os meus objetivos profissionais, apesar de planejar e tentar organizar minha vida para que no momento do nascimento eu tenha tempo para dedicar aos meus filhos, acredito que não vou conseguir evitar que ela esteja bastante agitada e sei que vou precisar fazer algumas renúncias. Talvez sejam essas renúncias que mais me preocupam”, pondera Flávia.

A decisão de não ter filhos não é repreendida, já que cada um sabe, de acordo com a sua consciência, das suas reais responsabilidades e missões nesta vida. A jornalista Bruna Miranda, de 32 anos, não pretende ter filhos porque se engajou de tal maneira a certas causas – e talvez por isso tenha deixado um pouco de lado o instinto maternal. “Depois de várias mudanças profundas na minha maneira de enxergar a vida, na minha espiritualidade e até profissionalmente, sinto que minha ‘missão’ é muito relacionada ao que amo fazer, que é a busca por ações com propósitos e por mudanças positivas, e tão necessárias, em questões de direitos humanos, campanhas ambientais e causas animais”, diz. Ela acrescenta que pode mudar de ideia e que “a decisão não é a de não gerar uma nova vida, mas me dedicar e ajudar, como puder, as vidas que aqui já habitam e o nosso meio ambiente”.

A fisioterapeuta Thaís Cruz, de 31 anos, sempre quis ter filhos, no entanto, terminou um relacionamento de cinco anos recentemente. “Estava imaginando que seria mãe no próximo ano, mas acabei me divorciando. Estava preparando minha saúde física e mental para assumir essa responsabilidade”, conta. Agora, Thaís tem novos planos, como a realização do sonho de estudar Medicina. Ela não descarta a vontade de ter filhos, mas enxerga que também pode ter outros objetivos edificantes, assim como Bruna. “Se por acaso não os tiver, estarei pelo mundo afora praticando Medicina solidária. Dedicarei a minha vida aos mais necessitados, principalmente aos irmãos africanos e também aos brasileiros e na América Latina”, afirma Thaís.

O que dizem as obras de Kardec

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec traz algumas interpretações sobre o tema e pergunta, na questão 693: “São contrários à lei da Natureza as leis e os costumes humanos que têm por fim ou por efeito criar obstáculos à reprodução?”. Como resposta dos espíritos, recebe a mensagem: “Tudo o que embaraça a Natureza em sua marcha é contrário à lei geral.” Em seguida, ainda na mesma pergunta, ao questionar o impedimento da reprodução de espécies que podem ser nocivas até mesmo ao homem, ganha a seguinte resposta: “Deus concedeu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder de que ele deve usar, sem abusar. Pode, pois, regular a reprodução, de acordo com as necessidades. Não deve opor-se-lhe sem necessidade.”

Pode-se concluir que já no século XIX a interpretação que os espíritos traziam a respeito da reprodução humana era flexível. Falava-se na necessidade da reprodução humana, mas ainda assim Kardec lembrava que tudo deve ser feito dentro dos limites do livre-arbítrio.

Fonte: http://serespirita.com.br/ter-filhos-ou-nao-escolha-consciente/

Intolerância Religiosa e Homossexualidade: Qual o papel das religiões?

Por Elaine Prada

“A minha experiência com a religião não foi das melhores, embora eu tenha sido bem acolhida e incentivada pelo meu pai a perseverar, a minha condição era vista como pecado e a minha presença na igreja era tida como um caminho para a cura. Eu me questionava constantemente: se não sou doente, porque querem me curar?”

A indagação é da jornalista A.P., de 28 anos. Ela é homossexual e sempre teve dúvidas sobre as afirmações da igreja a respeito de sua opção sexual.

T.M., administrador de 32 anos, também homossexual, indaga da mesma forma. “Meu pai não me aceita até hoje, não entende e não faz questão de entender. Sem o apoio incondicional da minha família, busquei suporte em algumas igrejas, mas o fato é que não me senti compreendido em nenhuma delas, além disso, vejo constantemente citações de ódio por membros da igreja na TV que me fazem repensar a fé e vendo essas situações, a necessidade que tinha por uma busca espiritual, nem sei se tenho mais.”

Relatos assim não são difíceis de encontrar. Muitas religiões – e é importante deixar claro que nem todas se encaixam nesse perfil – estão sendo utilizadas como plataformas de promoção para pessoas ambiciosas, que apoderam-se de discursos medievais e da fé do povo, para incitar o ódio, fazendo exatamente o contrário do que a igreja ou mesmo os ensinamentos cristãos ensinam.

Diante da diversidade e da isonomia que a natureza apresenta, e diante da reencarnação e da evolução continua, quem de nós estará livre de encarnar um dia com sentimentos semelhantes?

Para o diácono Augusto Langa, essa religião que condena não é a “igreja de Deus”, mas sim, a igreja dos homens. Segundo Langa, a religião não deve ferir a liberdade e a dignidade humana, mas sim, acolher e orientar, de acordo com sua interpretação do que é correto e justo. Ele lembra ainda que a religião deve aceitar a diversidade sempre. “É nesse momento, inclusive, que as igrejas precisam demonstrar a solidariedade e a fraternidade que tanto pregam”, analisa Langa.

Dicionários revelam que intolerância significa a falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças, intransigência com relação a opiniões, crenças e o modo de ser que reprovamos ou julgamos falsos. Percebe-se que a intolerância está em todo o lugar e não há necessidade de ir muito longe para se encontrar sinas de profunda austeridade.

Para o sociólogo e teólogo espírita, Guilherme Knopak, dentro da ótica do Espiritismo a homossexualidade é uma grande oportunidade de aprendizado e evolução. “A homossexualidade representa um espaço de expressão que permite ao espírito agregar valores e saberes para a sua trajetória reencarnatória”, analisa. Ele lembra que o Espiritismo não discrimina. “Não podemos reduzir nenhum indivíduo a uma capacidade ou atributo, mas entendê-lo em sua integralidade”, conclui Knopak.

O sociólogo e teólogo espírita utiliza-se da afirmação do intelectual norte-americano Gore Vidal em que ele explica que não existem pessoas homossexuais ou heterossexuais, mas atos homossexuais e heterossexuais. E o que isso quer dizer? Em resumo, significa que a homossexualidade também representa uma possibilidade de evolução, desde que essa condição possibilite a construção de uma existência pautada em valores morais. “Se os valores de uma relação homossexual forem de construção e amor ao próximo, também representam formas de processo de edificação do espírito”, comenta.

Segundo Knopak, a sexualidade é parte integrante de sua individualidade e de suas possibilidades de expressão e aprendizado no contexto material de reencarne, portanto, não cabe à religião “legislar” sobre a preferência sexual do ser humano, mas sim, orientar as pessoas para que vivam no amor e respeito mútuo.

O diácono Langa destacou ainda aquele que é o maior mandamento de todos e que deveria ser interpretado como um modelo para a vida, não permitindo questionamentos como esses que vemos atualmente: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado.” (Jo 13,34).



Fonte: http://serespirita.com.br/intolerancia-religiosa-e-a-homossexualidade-afinal-qual-o-papel-das-religioes/

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Da Existência de Deus - Pelo Espírito Meimei


Espiritismo Versus Aborto

Em Defesa da Vida

Os três funcionários daquela seção já não eram apenas colegas de trabalho, eram bons amigos.
A senhora que ocupava o cargo de chefia era uma espécie de mãe para os dois rapazes que dividiam com ela as atividades diárias.
O horário de expediente não era próprio para intensificar a amizade, e o tempo do cafezinho era curto para travar uma conversa mais demorada. Por essa razão, o moço Ronaldo, já casado, convidou o amigo para visitar sua casa.
Raul, o jovem solteiro, passou a freqüentar o lar do colega e os laços do afeto se estreitaram também com sua jovem esposa.
Passado algum tempo, o casal comemorava o nascimento da primeira filha.
A alegria tomou conta daquele lar com a chegada da pequena Ana Cláudia.
O tempo passou e um dia Ronaldo chegou ao trabalho cabisbaixo, o que não passou despercebido ao amigo, sempre atencioso e sensível.
“O que está acontecendo, meu amigo?” - Perguntou Raul.
Ronaldo disse-lhe que algo o estava preocupando muito, mas agora não era o momento para falar no assunto.
Naquele dia ele convidou Raul para tomar o cafezinho, alguns minutos antes. Precisava desabafar.
Mal se sentaram à mesa e Ronaldo disse ao amigo: “Você sabe que minha filha acaba de fazer dez meses e minha esposa está grávida outra vez?”
Não deu tempo para o amigo se manifestar e completou, aborrecido: “Mas eu não vou aceitar esse filho. Já marcamos o aborto para amanhã cedo. Vamos tirar a criança.”
Raul sentiu como se o chão lhe faltasse sob os pés. Como cristão, não conseguia entender como um pai e uma mãe tinham coragem de cometer um crime desses.
Ronaldo continuou suas justificativas dizendo: “Não dá para aceitar um filho logo em seguida do outro. Nossa menina está com apenas 10 meses...“
Raul agora entendera melhor as razões do amigo e perguntou com sincera vontade de obter uma resposta séria: “Mas, e por que você deseja matar seu filho?”
A pergunta caiu como uma bomba no coração de Ronaldo. Ele ainda não havia pensado na gravidade da situação.
Pensara em aborto, mas não no que ele representa: um homicídio.
Raul ainda lhe fez mais uma pergunta:
“E se sua filha vier a falecer, como ficarão as coisas?”
Ronaldo ficou desconcertado, abaixou a cabeça, terminou de tomar seu café e voltaram, ambos, para o trabalho.
Raul tinha atividades no seu Templo religioso e como a reencarnação é parte das suas convicções, rogou com fervor a Deus para que salvasse aquela criança.
No dia imediato os dois chegaram à seção, no período da tarde, pois trabalhavam só meio expediente, mas Raul não teve coragem de perguntar nada ao amigo. Temia pela resposta.
Ronaldo tomou a iniciativa, dizendo: “Minha esposa e eu não conseguimos dormir esta noite...”
O coração do amigo bateu acelerado..., mas não falou nada.
Logo Ronaldo concluiu: “Resolvemos deixar que venha mais um...”
Raul explodiu em lágrimas de profunda alegria e alguns meses depois estava na festa de um ano de Ana Paula, a segunda filha do casal, contemplando, feliz, o paizão exibindo as duas meninas, uma em cada braço.
O tempo passou e um dia, após retornar de breve viagem, Raul não encontrou o amigo na repartição, e quis saber o que havia acontecido.
A chefe lhe falou: “Então você ainda não sabe?”
“Não, me diga o que houve, por favor.” E a notícia lhe abalou novamente a estrutura ao ouvir a resposta:
“A filha mais velha do Ronaldo morreu.”
Raul dirigiu-se imediatamente para o lar dos amigos para encontrar o casal em profunda tristeza.
Ronaldo, que chorava discretamente com a filha adormecida em seu colo, disse com profunda dor ao amigo:
“Quero lhe agradecer por ter salvado minha vida. Sim, porque se você não tivesse evitado que eu matasse Ana Paula, a essa hora eu já teria matado a mim, movido pelo remorso e pelo desespero.”
Os amigos se abraçaram e choraram juntos por algum tempo. Mas Raul não esqueceu de agradecer a Deus por ter atendido às suas preces, poupando a vida daquela criança, que agora dormia, serena, no colo do pai, que um dia havia pensado em matá-la, no ventre da mãe.
Fonte:
Equipe de Redação do Momento Espírita. Mensagem baseada em história contada por Raul Teixeira em palestra na Comunhão Espírita Cristã de Curitiba-PR, no dia 11/04/02.